Notícia publicada em 22/05/2026
por Nízea Coelho

No dia 21 de maio, Itabirito sediou o desfile da Luta Antimanicomial e a data chega com peso extra: 2026 marca os 25 anos da Lei 10.216, que consolidou a Reforma Psiquiátrica no Brasil. Com o tema "Somos diferentes, somos muitos, mas todos cabem no mundo", o cortejo saiu às 14h30, após concentração em frente à Prefeitura, e seguiu até o CAPS I. O evento é fruto de uma construção coletiva entre os CAPS de Ouro Preto, Mariana e Itabirito, que há anos unem forças na região pelo direito ao cuidado em liberdade e por uma saúde mental que respeite e inclua. O cortejo chega à sua 18ª edição em 2026. A mobilização teve início em 2008, após a ampliação dos serviços de saúde mental no município.
O desfile foi marcado por muitos momentos emocionantes. Durante a caminhada, representantes da RAPS dos três municípios falavam ao microfone frases como "Trancar não é tratar" e "Manicômio Nunca Mais" pelas ruas de Itabirito. Suzana Gontijo, diretora da Rede de Atenção Psicossocial, destacou a história de Jean Charles, usuário do CAPS que passou 13 anos institucionalizado: "O Jean está aqui na rua com a gente, para provar que é possível cuidar na cidade, cuidar em liberdade. [...] Saúde mental se faz na cidade, se faz no território, se faz com acolhimento, se faz com arte, se faz com cultura, se faz lutando por direitos", disse Suzana durante o desfile.
Ao longo do mês de maio, os preparativos para o cortejo de Itabirito já movimentavam Ouro Preto. No CAPS AD, criatividade e expressão estiveram presentes na oficina em que usuários confeccionaram cartazes com frases de conscientização para o cortejo artístico em alusão ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Nas faixas, mensagens como "Cuidado em Liberdade" e "Paz, Justiça e Liberdade" tomaram forma nas mãos de quem mais entende a importância dessa luta. Em paralelo, a Banda da RAPS, formada por usuários e profissionais dos três CAPS do município, reuniu música e integração nos ensaios, com participação confirmada no desfile de Itabirito.
Para Suzana Gontijo, a luta antimanicomial vai além do fechamento de hospitais psiquiátricos. "Quando a gente fala de luta antimanicomial, a gente fala de mudar olhares. Porque, se a gente continua olhando para essas pessoas e vendo o perigo nelas ou a incapacidade, a gente continua reproduzindo o manicômio", afirma Suzana.
A união entre os três municípios surgiu da necessidade de fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial na microrregião. Na época, Mariana ainda não contava com serviços como o CAPS AD e o CAPS IJ, o que motivou a articulação conjunta entre as cidades para ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental. Hoje, mesmo com a ampliação dos serviços em Mariana, a parceria permanece, consolidando-se como uma forma de fortalecer a luta antimanicomial.
Em 2024, Ouro Preto foi sede do cortejo da Luta Antimanicomial, que teve como tema “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça. Por uma sociedade sem manicômios!”. Na ocasião, cerca de 300 pessoas foram às ruas em defesa da causa, entre trabalhadores da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), usuários da rede, gestores e apoiadores do movimento. A mobilização cresce a cada ano, reunindo um número cada vez maior de participantes que fortalecem, nas ruas, a luta por um cuidado em saúde mental mais humanizado e livre de manicômios.
Belo Horizonte marca o Dia Nacional da Luta Antimanicomial com desfile no Centro da cidade
Na segunda-feira (18/05), Dia Nacional da Luta Antimanicomial, as ruas de Belo Horizonte já davam o tom do que viria pela semana. O tradicional desfile da Escola de Samba Liberdade Ainda que TanTan tomou o Centro da capital, com concentração na Praça da Liberdade e encerramento na Praça da Estação. O tema deste ano, "Somos diferentes, somos muitos, mas todos cabem no mundo", ecoou pelas avenidas em um evento que ocorre há mais de 30 anos na cidade, promovido pelo Fórum Mineiro de Saúde Mental, pela Associação dos Usuários dos Serviços de Saúde Mental de Minas Gerais e pela Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial. Um grito coletivo pela reforma psiquiátrica, pelo tratamento em liberdade e pela cidadania.
O que é a luta antimanicomial?
Mais do que um hospital psiquiátrico, o manicômio é compreendido pela luta antimanicomial como uma lógica de exclusão presente em diferentes espaços da sociedade. O movimento denuncia práticas que silenciam, isolam e retiram a autonomia das pessoas em sofrimento mental ou em decorrência do uso de substâncias, reduzindo sujeitos a diagnósticos e reforçando estigmas históricos sobre a loucura. Nessa perspectiva, o manicômio não se limita aos muros de uma instituição, mas pode se manifestar nas práticas, olhares e relações sociais que silenciam, segregam, controlam ou retiram a autonomia das pessoas consideradas “diferentes”. Assim, a luta antimanicomial defende o cuidado em liberdade, territorial e comunitário, reconhecendo a singularidade, a autonomia e a cidadania dos sujeitos.
Texto por: Milene Latarulo e Suzana Gontijo
Revisão: Victor Stutz